| By Ann Demeester e Albano Silva Pereira,
on 21-03-2008 17:01
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Sobre a exposição de Michaël Borremans a decorrer no Centro de Artes Visuais (CAV) , em Coimbra, publica-se a seguir o texto do prefácio do catálogo da autoria de Ann Demeester, Directora de De Appel Centre em Amesterdão, e de Albano Silva Pereira, Director do CAV.
Prefácio: Het Grote Gemis/ Acerca da Maravilhosa Ausência na Obra de Michael Borremans Durante algum tempo tive visões de bolos gigantes, bolos enormes, tão grandes que era como se estivesse diante de uma montanha, sendo apenas possível ver parte dela. Descrevi detalhadamente como esses bolos eram tão perfeitos que não era necessário comê-los, porque a sua mera visão bastava para saciar o apetite. E chamei a isso pão para os olhos. Walter Benjamin in ‘On Hashish’ (1927-1934)1 O enigma – deliberadamente 'construído' ou não – tem sido uma característica constante na obra de Michael Borremans dos últimos dez anos. Os seus trabalhos – pinturas, desenhos e esboços – têm permanecido, na sua maior parte, como sinais de interrogação palpáveis que continuam a intrigar e a encantar, a deslumbrar e a deixar perplexos os seus espectadores. Porém, nunca foram do tipo de ‘enigmas’ para resolver, códigos a decifrar ou segredos a revelar. São imagens que se contentam em permanecer ‘veladas’, satisfeitas por falar em muitas línguas sem serem totalmente compreendidas. São o tipo de ‘pão para os olhos’ que não precisa de ser comido ou devorado para ser saboreado e apreciado. Borremans tem a capacidade de transformar a aparente banalidade do dia a dia em algo de extraordinário, de converter a sufocante monotonia das acções repetitivas numa cativante e aparentemente interminável reacção em cadeia semiótica de mutação de significados. Esta capacidade não está associada nem limitada a um suporte visual em particular, e isso tornou-se aparente quando o artista 'divulgou' os filmes que produziu nos últimos quatro anos numa apresentação no centro de artes de Appel, em Setembro de 2007, e que serão mostrados no CAV, em Coimbra, na Primavera de 2008. Os filmes surgem, no espaço da exposição, como uma espécie de ‘cine-tapeçarias’, com uma presença que excede a sua duração. Estes geram um tipo de experiência que está muito longe de qualquer tipo de absorção identificativa, e que contradiz a tradicional lógica racional da linearidade. Borremans afasta-se do filme como meio de reprodução total e explora o seu potencial de meio para ‘dormir num estado de consciência desperto’. De forma peculiar, os seus filmes desafiam a nossa competência analítica e induzem um estado semelhante ao sonho. São circulares e não representam nada, mas evocam uma atmosfera hipnótica e induzem um estado de consciência semelhante a um deambular sem destino através de uma paisagem desconhecida. Apesar de não terem sido concebidos como tal, parecem uma documentação do registo de uma performance que teve lugar num espaço indefinido e numa0 zona intemporal. Borremans eliminou aquilo que o historiador de cinema Bart Testa denomina as ‘distracções superficiais’ do filme – a representação, a narração, o fascínio cénico2 - para criar imagens ‘puras (projectadas)’ que convidam à contemplação. Cada sequência parece unificada e autocrática. Borremans nunca transforma os seus actores em ‘personagens’ ou pessoas: eles permanecem uma espécie de bonecos de cera animados que, através das suas acções – executadas de forma cuidadosa e controlada -, criam uma imagem. Classificar, em consequência, estes filmes como ‘pinturas em movimento’ seria uma descrição demasiado óbvia e uma forma de análise preguiçosa. Porém, para o espectador atento é óbvio que toda a sua ‘produção’ - pela recusa de um enredo identificável - se encontra marcada por uma ausência de desenvolvimento narrativo. Os filmes destacam-se pelo seu ‘terrível silêncio’, que é mais alto que qualquer tipo de discurso poderia alguma vez ser. Nos filmes de Borremans o tempo parece ser espesso, como um líquido viscoso: movimentos aparentemente improdutivos - mas solenemente executados com uma meticulosidade intimidante - são repetidos incessantemente até que coagulam num momento que parece a celebração da ausência de progresso. Apesar de os filmes terem um interesse anedótico minimalista, são ficções que conjuram um mundo de pura imaginação. Nunca poderiam ser reais apesar do seu aparente realismo. Todas as obras fílmicas de Borremans – mesmo aquelas que se ‘apresentam’ como retratos - podem ser lidas como uma sequência de quadros vivos, uma série de pantomimas nas quais a ‘ausência de som’ se transforma num factor afirmativo. A omissão deliberada de uma banda sonora chama a atenção para a sensação prevalecente de um ‘grande vazio’, a ‘maravilhosa ausência', o vácuo devastador que se encontra no centro da obra. Um vazio que, no entanto, não é sinónimo de oco, mas que pelo contrário transporta consigo um imenso potencial de possibilidade. Os filmes de Borremans – tal como a sua obra pictórica – evocam um mundo que parece lúgubre e sinistro, infundido pelo desejo de um sentido e de um objectivo que se recusam a materializar. Mas é exactamente essa falta de objectivo aparente que possibilita uma miríade de sentidos. Como directores do de Appel e do CAV, estamos extremamente felizes por termos tido a possibilidade de organizar as primeiras apresentações destes filmes na Europa. Gostaríamos de expressar os nossos agradecimentos à artista Anna Dops e à galeria Zeno X pela incansável energia com que trabalharam para tornar estas exposições uma realidade. Gostaríamos ainda de manifestar a nossa gratidão aos autores, pelos seus valiosos contributos, e à Comunidade Flamenga pelo apoio financeiro a esta publicação única. Esperamos sinceramente que a audiência e os leitores deste livro sejam capazes de experimentar e explorar esta experiência fílmica, ainda não cartografada, que Michael Borremans nos oferece através desta nova série de trabalhos. 1 Walter Benjamin, On Hashish, The Belknap Press of Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts e Londres, Inglaterra, 1930, p 60. [Tradução livre da versão inglesa] 2 Bart Testa, Back and Forth: Early Cinema and the Avant-Garde, The Art Gallery of Ann Demeester Directora, de Appel, Amesterdão Albano Silva Pereira Director, Centro de Artes Visuais, Coimbra |