| By Vera Chi Lo Sa,
on 24-03-2008 14:29
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Não me espanta nadinha que um dia destes comece a haver transferências de exposições como hoje há transferências de jogadores de futebol. Por este caminho, chegará a vez de desdobrar o “Jornal de Letras” – que compro por ser magrinho e p’ra intelectuais como a je – e de me aparecer em título: “Serralves troca uma de Rauschenberg por duas de Gerald Bloncourt e opção sobre Ângela Ferreira”. Aí, percebo logo no que deu a actual “guerra de números” entre o Serralvense e o Berardino’s. É cá uma coisa, esta das estatísticas visitativas… Agora foi a vez de Serralves dar brilho aos galões com a exposição “Robert Rauschenberg: Em viagem 70-76”. Diz ser a segunda mais vista do Museu, com 120 mil pessoas. À frente ainda está a de Paulo Rego, há quatro anos, com 157 mil visitantes, aproveitaram logo eles, os de Serralves, para lembrar. Claro que para o BPI, mecenas exclusivo da Fundação de Serralves, os números são euros e euros são importantes. Mas não será mais importante a qualidade do que se expõe? Parece-me que Rauschenberg vale não pelo número de pessoas que o vai ver, mas pela qualidade do seu trabalho e, já agora, digo eu que sou loira e naif como uma gatinha de colo, pela qualidade daqueles a quem interessa e no que lhes deixa, dado e arregaçado. O reino da quantidade aplicar-se-á melhor, continuo a dizer eu, feita gatinha branca, a um desses “Mc qualquer coisa”, que também estão sempre cheios de gente, em especial aos fins de mês. No entanto, o que se por lá serve… Mas se a semana passada foi para o Serralvense, esta semana será para os Berardino’s e à espanhola. Pois, como se sabe e vem sendo hábito desde D. João V, os nuestros hermanos vieram todos até à província passar a Pascuuela. E chegou, finalmente, a minha vez de utilizar a palavra que desde há uma quantidade de tempo me anda a comichar no céu da boca e, p’ró caso, na ponta do dedo indicador direito, o cansado batedor destes lúdicos apontamentos. A palavra é “incontornável”. E aí vai: é em absoluto incontornável falar da exposição de Alvess em Serralves, ali enquadrado, por estes dias e para mais, por Pomar e Rauschenberd. Não sei se esta exposição terá tantas visitas como a de Paula Rego, mas para mim que não aprecio muito as “mc´s coisas”, ficou-me a sensação de ter sido por pouco que não perdi a oportunidade de conhecer uma obra genial. Sim, já sei que sabem e só por isso acho que vou pintar o cabelo de preto. Mas sempre digo eu, que ainda sou loira e quê: não acham muito loiro, ou a fazer-se de loiro, este João Fernandes, director do Museu de Serralves, quando diz, no catálogo da exposição do Alvess, nunca ter acreditado na obra-prima desconhecida? “Nunca acreditámos muito na existência da obra-prima desconhecida, escondida algures à espera de alguém que a venha descobrir e revelar ao mundo” escreveu. Olha p’ra ele agora! Ou é inocente – e não é, que já nem tem idade para isso – ou julga que engana quem? Quem me parece inocente de todo, ou um caso típico de dislexia, ou a dar os primeiros passos numa de alzeimerização é sua excelência o senhor ministro da Cultura. Então não é que o cujo defende este acordo ortográfico? Então não é que considera tal histórica aberração uma “necessidade para a expansão da Língua portuguesa”? E não se dá ele ao despautério – palavra que minha avó utilizava muito e agora a cair em desuso – de sublinhar, no Parlamento, que as reformas anteriores “não destruíram a criatividade e a liberdade de escrita”? E não lhe dá para pensar na Língua portuguesa como a mãe de outras línguas, que já não tem nada a ver, a não ser o orgulho maternal, com elas e como vão viver depois de terem saído de casa? Que eu saiba não há acordo nenhum entre americanos e ingleses, no que diz respeito à Língua inglesa, e esta é a língua mais difundida do mundo. Quanto a destruir a criatividade e a liberdade de escrita, deixo aqui os meus parabéns a sua excelência o senhor ministro da Cultura e tudo. Não sei se é ideia dele ou se foi assessorado socraticamente, mas ACERTOU! Se nem no tempo da santíssima inquisição e depois no das reais mesas censórias e depois no do lápis azul e do lápis vermelho conseguiram cortar o pio à palavra em Português, não me parece que alguém o consiga agora, mesmo com muiiito esforço. E prontos… |
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