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07-Jan-2009
À margem dos rios | Maldizer PDF Imprimir e-mail

By Vera Chi Lo Sa, on 31-03-2008 20:38

Ai mãezinha, agora é que todo o mundo loucou!

Que mudem a direcção transitável das ruas lisboetas todos os dias, que troquem de cor política para a terem a condizer com a camisa lavada, até que se proíbam manifestações em país de democracia dita e feita, tudo bem… Agora quanto a quererem levar para Espanha os três maiores rios portugueses, e pagando, ainda por cima, euróticos balúrdios para isso, começa a ser de mais! Pois, é assim mesmo: querem levar para a Expo 2008, em Saragoça, o Douro, o Tejo e o Guadiana com as respectivas bacias hidrográficas incluídas. Bem vistas as coisas, todos nós sabemos que estes rios nem são nossos, são dos espanhóis, foram eles que os puseram cá. Se os querem de volta, que os venham buscar... Como ainda estou a digerir as festas pascais não me sinto com vontade de aprofundar esta linha oxigenada de pensamento. Um outro dia talvez vá por aí, até aos Henriques e às Urracas. Para já e já que estão numa de levar, que levem também alguma boa gente que só nos complica a vida e a ponha, sei lá, a apanhar fruta na Andaluzia… Esta do um por cento está-me atravessada!

Enfim, meus kridos, os rios deste país estão mesmo na moda.

Ao Guadiana, ao Tejo e ao Douro vou juntar agora o Rui (Fernando da Silva no) Rio.

Tal como o Douro, Rio no Rui também passa pelo Porto e também separa duas margens, a direita da esquerda e a esquerda da direita, que ele é muito pão-pão, queijo-queijo e dobradinha e tripas. Bem, a esquerda diz que Rio no Rui agrega tudo para a direita e segrega tudo para a esquerda e com isso há uns que ficam com o pão, o queijo, a dobradinha e as tripas e os outros sem nada, nicles, népia, sentindo-se prejudicadíssimos. Como os das Artes Cénicas, associados em Portugal numa associação profissional chamada Plateia, o que é muito a propósito.

Pois a Plateia, com maioria de membros de Porto, acusa Rui no Rio de coisas infames. Uma delas não percebo eu muito bem: o aquático autarca é acusado de estancar “o crescimento das estruturas de criação da cidade, mantendo-as num patamar de puberdade perpetuada". Ora, pudesse eu ter uma puberdade perpétua e saber o que sei hoje a ver se me ralava…

No manifesto em que manifesta o seu profundo descontentamento versus presidente da Câmara do Porto, no dia mundial do Teatro, a Plateia acusa-o de "segregar tudo o que é arte". Caracteriza a política cultural de Rui no Rio como “displicente” e crítica o congelamento de financiamentos às actividades culturais. Até aqui é só o costume e “a crise” serve de explicação, hoje como ontem. Mas, desta feita, apanharam Rui no Rio numa nova comporta: aquela negociata da privatização do Teatro Municipal Rivoli que "num só acto prejudicou duplamente a população da cidade: privou-a da programação de dança e novo circo de excelência, privou-a de palco condigno para a produção própria", como se sublinha no manifesto.

Antes de escrever “negociata” falei com o Toni, aquele amigo do assessório cultural socrático, não fosse uma fúria caudalosa meter-me em sarilhos. Posso escrever? - Perguntei-lhe – “Podes sim, fofinha, porque o Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto reconheceu a ilegalidade desse acto administrativo”. Apontei direitinho, para não me esquecer. Assim, é ilegal a gestão do Rivoli por um tal Filipe de nome espanholado e se é ilegal é uma negociata manter o modelo de direito privado de funcionamento num teatro que pertence à cidade é dos portuenses todos e já era assim antes deste Rio aparecer a saltar as margens da lei e a assorear à direita.

Para não dizerem que estou a meter-me em assuntos alheios às artes plásticas, mas de outras artes e de outros artistas, como este Rui no Rio do mais fino recorte, vou falar agora e prontos! E não é do meu Berardinho krido nem de sua excelência o senhor ministro da Cultura (aquela do telefonema será mesmo verdade?), mas de Fernando Lemos, que venceu, aos 81 anos, o “Prémio de Pintura Banif 2008 – Consagração”, o que lhe acrescenta prestígio e 30 mil euros à conta bancária.

A escolha, justificou o júri, recaiu sobre Fernando Lemos – há anos que anos a viver no Brasil – "pela capacidade de trabalho multifacetada verificada ao longo do tempo, em obras de grande qualidade nos domínios das artes gráficas, da poesia, do desenho, da pintura e da fotografia". Acho bem. Acho mesmo muito bem que se premeie alguém aos 81 anos em vez de o fazerem a título póstumo. Por isso deixo aqui, para a pequena história, a constituição do júri: José-Augusto França, Guilherme d`Oliveira Martins, Rui Mário Gonçalves e Sílvia Chico, além de Marques dos Santos e Rocha Moreira, que ninguém conhece mas convinha conhecer pois representaram o mecenato.

Ah, não se esqueçam: os rios são nossos amigos, mesmo quando vêm de Espanha e para lá voltam!

Bjokas

 

   

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