| By Vera Chi Lo Sa,
on 04-04-2008 18:35
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Excelentíssimo senhor ministro da Cultura, os meus parabéns!
De um cavalheiro elegante e discreto, até demasiado, como vocelência, ninguém ousaria esperar mentalidade inovadora e mais, vontade de impor moda. Até agora, que se saiba, nunca ninguém pensou em embarretar dona Cultura, a senhora que serve com tanto zelo e capricho, embora há pouco tempo ainda. Não sei se vai dar, mas sei que deve tentar. Se há coisa de que uma mulher goste é de um homem impositivo, como se diz agora. Com o aprumo e a robusta sensualidade do homem do campo, simples, livre, rude e forte, direi eu, que li Madame Bovary. Eu e a Kikas, por exemplo, não perdemos tourada e é só para vermos, confesso, os forcados embarretados a agarrarem-se ao touro pelos estames e por onde calha. Há lá coisa mais sexy, rabejador à parte, do que aquela luta entre pares! Já não sei é se uma mulher gostará tanto de homem que lhe enfie o barrete, mas os tempos mudaram e quanto mais mudam mais voltam ao mesmo, como a moda. Oh excelentíssimo senhor ministro: cá por mim, como sou avançada para a época que vivemos, a ideia de enfiar um barrete na sua dama é, no mínimo, genial. Se fosse chapéu, boina ou boné, mesmo um lenço domingueiro, não era a mesma coisa. Barrete sim, que é sinónimo de liberdade, desde a antiga Ásia Menor passando pela França com a queda da Bastilha, até Portugal nas nossas Festas Rijas e do Barrete Verde. Embarrete-a! Porque, quanto a mim, excelentíssimo senhor ministro, de barretes só há um que não entendo: é a mitra. Por um lado faz lembrar sopa dos pobres, por outro é complemento indumentário de clérigo rico. Na minha juventude andei num colégio de freiras, muito in, na Linha, onde as irmãs me ensinaram, entre outras coisas, a papaguear os sete pecados mortais. Lembro-me que três deles eram a avareza, a luxúria e a vaidade. Mas eu sou loira e quê, e o Papa é que sabe sobre a cena do “larga tudo o que tens”... Mas não só e é isso que me está a encher a alma de uma incontida e artística alegria, que desejo ver subsidiada em breve. Já vão perceber o motivo. Nós, os artistas, temos a dar-nos apoio, carinho e bons conselhos, uma coisa chamada Direcção Geral das Artes, que tem por missão, entre outros objectivos, a atribuição de subsídios e divulgação das artes portuguesas em eventos internacionais. Ora bem… nem mais! E quem é o novo Director Geral das Artes, quem é? Jorge Barreto Xavier, a segunda nomeação do nosso excelentíssimo senhor ministro. E quem é ele, quem é? Além de advogado, é um afamado perito em assuntos de fé – e é precisa muita para se olhar a nossa dona Cultura. Se não sabem, foi mesmo uma das vozes mais impositivas no Congresso da Nova Evangelização (ICNE) e dos 40 anos da Gaudium et Spes, constituição pastoral sobre a Igreja no mundo actual, a quarta das Constituições do Concílio Vaticano II. Ai, o que euzinha sei destas coisas...
E que diz Barreto Xavier, que diz ele? Disse, e toda eu me escalafrito: “Existe uma diferença de valor entre fazer pouco, muito ou nada? Pode alguém que tudo fez ter dificuldade em encontrar-se em Deus e quem nada agiu estar em Graça? (…) podemos encontrar as linguagens para comunicar, sendo que mais que falarmos a nossa linguagem para o mundo, devemos falar a linguagem do mundo. Não se trata de adaptar a Mensagem. A Mensagem não deve ser corrompida pela oportunidade”. Não é lindo o nosso homem dos subsídios dizer isto? Não é curtido vê-lo “dar tudo o que tem”? Ai, estou que nem me aguento! Ainda não percebi se tanto advogado em casa da nossa dona Cultura é para defender os nossos interesses enquanto artistas, ou os interesses deles enquanto políticos, ou agora nesta versão, para dar "aos pobres" o que tanta falta lhes faz, em vez de se ficar numa de benesses prós amigos e amigas… Enfim, fico à espera de alguém que me esclareça. Senhor director geral novinho em folha: espero que não seja picado pelo mosquito da amnésia. E que tenha todas as bençãos que merecer. Para acabar em grande esta semana, sua excelência o senhor ministro da Cultura veio a público dizer que o "valor económico de Fernando Pessoa pode ser superior ao da PT”. De Fernando Pessoa não entendo nadinha e bem que tentei, lá isso tentei… Cá para nós, o senhor era masé maluquinho, com tanta gente a falar-lhe dentro da cabeça. Não percebo, prontos, mas respeito. E não era capaz de o vender nem por cinquenta berardos, mesmo mais! Nem sei se não devo levar a mal, mesmo muito a mal, esta comparação economicista. Ainda me privatizam Pessoa, um dia destes, se começam com estas coisas… Além do mais, a um ministro da Cultura fica muito mal por um preço ao Nandinho, mesmo um preço comparativo. Já viu se um tal de Belmiro, podre de rico e que disse estar comprador de tudo, lança uma opa sobre o vate? |
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