| By Vera Chi Lo Sa,
on 13-04-2008 15:16
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Sou uma extraterrestre! Devo ter caído por aqui ao engano, que de cá não sou, nem me sinto e, pior, por este caminho, nem me quero! Talvez a outros tenha acontecido o mesmo, virem aqui parar, a este “planeta azul”, sem sequer saberem como. Até podia, até podíamos, gostar de cá estar, mas não, assim não, assim não gosto. Não gosto, não aceito, nem me encontro espaço numa sociedade que premeia o mal e o mau e a cada dia que passa mais o meu lindo cabelo loiro se embaraça... Há coisa de meio ano, o meu cabelo emaranhou-se de tal forma com a notícia de escabrosa intervenção de um “artista” costa-riquenho numa galeria da Nicarágua, que ainda hoje não tinha conseguido resolver tanto nó na minha cabecinha. Bem, é uma cabecinha pouco habituada a pensar, aceito, porque pensar dói, mas está toda levantada na ponta das unhas, pintadas, dos pés do instinto e da intuição, que moram no andar de baixo e no andar de cima disso a que se chama inteligência. Um dos nós mais difíceis de desembrulhar era e ainda é: onde acaba a Arte e começa a maldade, a crueldade, a desumanidade, a pornografia? Na altura, não quis sequer comentar a “obra” hedionda do “artista” porto-riquenho por não a querer valorizar. Há coisas que o melhor é mesmo não falar delas, pensei eu, para não lhes dar a publicidade imerecida. Enganei-me. Então é assim: Guillermo Vargas Habacuc, em Agosto de 2007, pegou num cão de rua, famélico, atou-o a uma corda curtíssima num canto da galeria de arte em Manágua, onde expunha os seus quadros e ali o deixou. Durante vários dias, tanto o autor de semelhante crueldade como os visitantes presenciaram impassíveis a agonia do animal, sem lhe ligarem nenhuma. Afinal, é costume ter-se um bicho a morrer entre os quadros que vemos… Ou não é? O cão acabou por morrer à fome e à sede, durante o "evento artístico”, que só por isso mesmo foi notícia em todo o mundo. Curiosamente, ninguém falou da qualidade da pintura de Habacuc. Parece que a grande maioria dos habitantes deste planeta que leu sobre esta crueldade ficou incólume. Se calhar até achou graça. Ou, sabe-se lá, pensou que se tratava de uma dessas histórias da net, como a da menina do centro comercial a quem roubaram um rim, ou a dos gatos que vivem dentro de uma garrafa… Mas não. Este Habacuc acaba de ser escolhido para representar o seu país na Bienal Centro americana Honduras 2008, onde até vai receber um prémio. E mais: foi convidado a repetir a sua “obra-prima”, quer dizer, a matar outro cão, à fome e à sede. Com esta segunda notícia, os meus lindos cabelos emaranharam de vez! Passei-me, passei-me de todo, com este mata-cães e com quem o aceita e com quem lho permite e com quem o premeia. Para quem não sabe, ou anda distraído, desde Janeiro de 1978, já lá vão trinta anos, está em vigor a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, proclamada em assembleia-geral da UNESCO, em Bruxelas. Nela se estatui que “todos os animais nascem iguais diante da vida, e tem o mesmo direito à existência”, “ao respeito”, a “consideração, a cura e à protecção do homem”. E para que não haja dúvidas, a Declaração estabelece que “nenhum animal será submetido a maus-tratos e a actos cruéis” e que “se a morte de um animal é necessária, ela deve ser instantânea, sem dor ou angústia”. O “artista” Habacuc pode não conhecer esta declaração, ou estar-se nas tintas para ela. Agora os membros da organização da Bienal Centro americana, que é um acto cultural importante, devem ao menos saber ler e escrever e contar e ter ouvido falar em direitos dos animais. O outro nó que não consigo desfazer na minha loira cabeleira tem por base uma pergunta, esta: Porque valorizamos, destacamos, premiamos e aplaudimos, nesta sociedade, homens que praticam actos deste género? Só encontro uma resposta. Hoje, o “herói”, o exemplo a seguir, passou a ser quem transgride, quem corrompe, quem viola, quem descamba para o outro lado da ética. Vivemos numa sociedade onde o crime compensa, pior, onde a própria definição de crime se esbate, onde a “dupla linguagem” de Orwell se tornou vulgar, dos governos ao homem da rua. Vai uma unha negra e um cão morto, de Hababuc, aos nossos candidatos às autárquicas arguidos em processos de burla, ao Iraque, sei lá… E é por isso que me sinto cada vez menos uma indígena deste planeta azul, até ver… |
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