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07-Jan-2009
Acabe-se com o MC pum! | Maldizer PDF Imprimir e-mail

By Vera Chi Lo Sa, on 21-04-2008 12:33

Meus queridinhos, sinto-me tão bem, tão bem, tão bem que me deu para cortar rentes as unhas panterescas e reduzir ao essencial a produção de bílis. Esta semana é tudo azul e algodão açucarado, que toda eu sou música, além de gira!

Nunca imaginei sentir tanta alegria sem comprar meio shooping numa tarde. Esta sensação é ainda melhor, pois não me desfiz da fortuna offshore, nem comprei a crédito, não cheguei a casa com os pés a quererem rebentar e até me sinto menos loira e tudo! Ai que bom.

Eu sempre disse que o meu mais que tudo, o Joezinho, era um espanto de homem, mesmo gordito e tal, barrigudito e tal, o que só lhe aumenta o encanto – e a profundidade daquela voz com pronúncia única.

Vejam só o que ele fez agora: convidou um monte de músicos, pra'i mais que uns quinhentos, pô-los a darem concertos, pelo menos setenta, da música erudita ao jazz, e tudo, mas tudo, a preços de “loja de 300”. O Centro Cultural Berardo transformado num sétimo céu, com ele a dar-nos música por três vinténs! Ele eram sonatas, sinfonias, rapsódias, violinos, flautas, pianos, clarinetes, cravos, até um zimbalão – não sei o que é, nem o vi, mas disseram-me que estava lá um. O melhor, o melhor mesmo, para mim que sou doidinha por ele, foi que vi o meu JB. Ia tendo uma coisa, de tão doida que me fiquei. Claro que o meu Joezinho estava disfarçado, de óculos escuros e todo de branco. De nada lhe valeu, que a mim ele não escapa, aquele homem põe-me louca.

Bom, agora tenho de me concentrar, para vos falar de coisas muito menos importantes, como a preocupação do director do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico com a segurança do pouco que lhe resta para gerir. Elísio Sumavielle, nome que julgo ter sido encontrado numas escavações de ruínas visigóticas, aproveitou o Dia das coisas sob a sua gerência para dizer que "o património parece estar em moda e há peças portuguesas muito apetecíveis; devemos prevenir, por trancas à porta, antes da casa arrombada". O que é muito bem dito e até lhe fica barato porque propôs a videovigilância como tranca e “a responsabilização das respectivas dioceses para que haja alguém que visite o templo regularmente". Mas, "o ideal era vivenciar os espaços religiosos: a utilização do património é a sua melhor protecção", sublinhou. Não ficou esclarecido se Elísio Suma-e-etc. vai dar uma mãozinha aos proprietários das igrejas inseguras para lhes garantir a frequência mínima ou se vai ficar-se pelo conselho ao Patriarcado. Só estou a falar disto porque fui educada “no” colégio de freiras da Linha e há coisas que ficam, pecébem?

E não é que António G. de Pinho, presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves, defende a extinção do Ministério da Cultura (M.C.), a autonomia das instituições que dele dependem e a sua substituição por uma secretaria de Estado? E que Rui do Rio, o magnifico presidente do Porto, venha dizer a mesmíssima coisa? Moi, como artista, penso que não… Sempre prefiro ter um ministério que não faz nenhum a uma secretaria que não fará nenhum na mesma. Um ministro tem outra panache, mesmo que este nos tenha chegado um tanto ao arrepio.

Bem, é sabido que o Ministério é autofágico: consome grande parte dos (parcos) recursos que lhe são afectos. E daí? Daí recorre indiscriminadamente ao mecenato, por vezes de forma desleal e perversa. E daí? Daí que o carácter central, nuclear, que a Cultura e as políticas culturais devem ter, num Estado contemporâneo, seria melhor assegurado por um adjunto do Primeiro-ministro do que por um ministro, sem poder político, sem capacidade negocial e com o orçamento que é sabido. Em Portugal a Cultura é o terceiro contribuinte para o PIB, vale 1,4%. Para este ano de 2008 o orçamento da Cultura é de 245 milhões de euros. Menos 14% do que no ano de 2000, quando Manuel Maria Carrilho, o de sumptuária memória, se demite alegando falta de meios financeiros para fazer o prometido.

Agora que temos mais despesas e ainda menos orçamento do que há sete anos, como é que o excelentíssimo senhor ministro José António Pinto Ribeiro continua a dizer que vai fazer mais com menos?

(Ai que já me dói a cabecinha de tanto puxar por ela para escrever direitinho o que me segredou ao ouvido, entre dois martinis, uma destas noites, “fonte muito bem colocada” com um “escreve lá isso e agora não faças asneira…”. E tinha começado tão bem, tão azul e tudo).

Bem, era só perguntar por perguntar. Desconfio é que pode estar a armar-se uma marosca para se passar de vez a pasta da Cultura para Serralves. Bem vistas as coisas, nem era má ideia de todo: a administração não está sempre a mudar e trabalha à borla, o Museu de Serralves é dos mais populares em número de visitas, as exposições em termos qualitativos vão do muito bom ao aceitável, desenvolve políticas de parceria com outras instituições portuguesas e itinerâncias várias.

Agora descer de novo a um secretário de Estado, isso não, isso nunca, era passar a classe dos artistas de cavalo (mesmo de cigano) para égua e de égua p'ra burro.

Mas meus kidos, não se esqueçam, eu só estou por cá para maldizer, embora hoje numa de suavidade, a cause de mon cheri BJ.

   

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