| By Luís Pinheiro,
on 23-04-2008 08:05
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Até ao advento da modernidade, a Arte preocupou-se externamente em adequar forma e conteúdo, através do desenvolvimento, entre outras, das técnicas de representação, composição e iluminação. Preocupações técnicas que, em algumas épocas, tornam confusa a distinção entre a actividade artística e a prática do artesanato sem, contudo, se anularem. Hoje, as metodologias empregues pelos artistas assemelham-se quer à prática industrial quer à actividade política. Assim, a obra de Arte encontra-se ameaçada, pela ausência de poética ou de concretização.
“To work with a plan that is pre-set is one way of avoiding subjectivity. It also obviates the necessity of designing each work in turn. The plan would design the work. Some plans would require millions of variations, and some a limited number, but both are finite. Other plans imply infinity. In each case however, the artist would select the basic form and rules that would govern the solution of the problem. After that the fewer decisions made in the course of completing the work, the better. This eliminates the arbitrary, the capricious, and the subjective as much as possible. That is the reason for using this method.” (Sol LeWitt, “Paragraphs on Conceptual Art”) A actividade artística, quer se considere que a Arte existe enquanto fenómeno apenas a partir do século XVIII quer se encare como uma manifestação humana que se estende ao início da civilização, tem sempre por trás um acto mágico: a representação. Durante muitos séculos a linguagem artística desenvolveu-se aliando a expressão poética ao desenvolvimento de técnicas de representação formais, que implicavam estudos prolongados e cujos segredos eram, muitas vezes, transmitidos de mestre a discípulo. Assim, nas oficinas, os aprendizes tratavam de pincéis e da preparação de algumas tintas e outros materiais, antes de lhes ser permitida a participação na obra. Com o advento da industrialização e da sociedade moderna, a massificação tornou “ineficaz”, quer a pratica artística anterior, quer o método de ensino que lhe estava associado. A sociedade moderna, com as novas tecnologias que conduziram às transformações que se verificaram na Arte ao longo do século XIX e XX (e se prolongam pelo nosso século) aparenta estar, cada vez de forma mais acentuada, órfã de uma qualidade humana – a poética. Episodicamente surgem correntes artísticas que utilizam a poética, mas a grande maioria dos trabalhos realizados não a atingem, por falta de capacidade do autor ou por atitude propositada, ou ainda por ser utilizada de forma meramente ilustrativa, perdendo toda a força expressiva que a caracteriza. Se a fotografia, a produção e reprodução industrial, a máquina e a informática conduziram ao aparecimento de novas formas do pensar e de expressão na Arte, as obras executadas traem, na sua maioria, uma excessiva objectividade, sinónimo do pensamento dito científico utilizado na concepção e realização do trabalho artístico. O pensamento científico trouxe, sem dúvida, novas maneiras de encarar a obra de Arte, que o artista contemporâneo deve ter sempre em consideração. Há, contudo, um risco quando se utilizam estas, ou quaisquer outras, metodologias: o de resumir a obra ao processo. Sem dúvida que o que importa no trabalho artístico é a transformação inerente à criação, reprodução ou exibição da obra, que possibilita a realização da catarse necessária e, nalguns casos, conduz o artista ou observador/participante a um novo estado de consciência de si e, consequentemente, do mundo que lhe é exterior. Porém, a maior parte das vezes a obra é mero processo por razões que se prendem com a necessidade de espectáculo, ou é intervenção de cariz político que convém ao “sistema da arte” alimentar, para dar a ilusão de que a liberdade e a critica existem. 
Ao longo do século XX, primeiro com o advento do “design” e, mais tarde, com o surgimento de correntes como o minimalismo e o conceptualismo, a obra de arte tornou-se cada vez mais uma “construção” objectiva, a partir de conceitos desenvolvidos pelo artista que, muitas vezes, sequer se conseguem apresentar de forma clara ao observador. Assim, assistiu-se em simultâneo a duas situações. Por um lado, ao alargamento artificial (por ser provocado intencionalmente), de um fosso entre o grande público e o artista. Por outro e, em parte inerente a este facto, a uma redução do número e níveis de significados possíveis nos trabalhos artísticos realizados. A obra não estabelece relação com o público não só por falta de capacidade deste último no entendimento intelectual da mesma, mas também por não se estabelecer qualquer tipo de relação emocional com o observador. É pois necessário resgatar o trabalho artístico da estéril produção intelectual que cada vez mais contamina os circuitos pelos quais o fenómeno da Arte se manifesta. A um “artista” entrosado nos circuitos de compra e venda não é necessário o domínio de qualquer tipo de capacidade técnica na execução da obra, sequer qualquer tipo de capacidade poética e imaginativa, lógica, racional ou abstracta. Por isso, as formas que invadem os espaços culturais são, cada vez mais, meras repetições. Ninguém procura criar nada. Todos copiam o que é moda ou se procura estabelecer como tal. A “Pobreza” na realização da Arte chegou a este ponto. Já nem é de Arte que se fala, mas de mera mercadoria e da sua cotação. Como tal, um dos campos em que o “artista” também se insere – no que respeita à expressão do seu trabalho – é o do “marketing” e da publicidade.  O artista contemporâneo que se restringe ao conceptualismo recusa, no mínimo por desconhecimento, a Poética e a Beleza. Dotado apenas de uma metodologia de trabalho, na melhor das hipóteses desenvolvida por si, é incapaz de sentir verdadeiramente o que procura transmitir. Neste aspecto em particular, a sua obra tem o mesmo valor que o domínio de uma qualquer técnica de expressão – mero instrumento de trabalho. O conceptualismo, quando usado dessa forma, condiciona e limita o artista. As obras onde a poética se encontra ausente tornam-se, em grande parte, vazias e repugnantes. Esta situação é fomentada por grupos de interesse que utilizam a “arte” enquanto veículo para a sua própria expressão ideológica (a “formatação” começa nas escola de Arte). A Arte deixa de se preocupar com as questões centrais e eternas do ser humano, as únicas que importam verdadeiramente, para se centrar em questões sociais presas à realidade temporal. A objectividade artística contemporânea interessa ao conceptualismo, ao sistema e à política, não à verdadeira Arte. A obra de “arte” é apenas o “esqueleto” da obra de Arte. Em cada época, o sistema de valores dominante condiciona a compreensão que se tem não só da realidade presente como também da anterior. No passado, a execução de uma obra de arte tornava necessários estudos e esboços, que antecediam e, depois, acompanhavam a concepção e realização da obra. Hoje, cada vez com maior frequência, a obra nunca chega a concretizar-se: o “artista” limita-se a apresentar o que foi capaz de executar, a mais das vezes variações de ideias que “aparentemente o tocam”. Repetem-se as mesmas fórmulas, não só pelas imposições do mercado, mas também pela incapacidade de dar passos que conduzam o trabalho artístico individual para além das barreiras que o próprio artista, por segurança, constrói em seu redor. Por desconhecimento do que é a Arte, o artista contemporâneo, desejoso de fama e de sucesso, refugia-se naquilo que é apenas, embora de extrema importância, o “esqueleto” da obra, i.e. o processo metodológico. O método projectual, quando executado de forma mecânica, e a objectividade do pensamento abstracto/científico encurrala muitos artistas numa expressão que, embora provoque sensacionalismo, é vazia e limitada, por ser “só” objectiva. Onde está, na obra actual, o poder de sugestão? |
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