| By Olivier Assayas,
on 25-04-2008 14:03
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“Boarding Gate” passa actualmente nas salas portuguesas. Este filme de baixo orçamento associa Oriente e Ocidente, assassínio e sexo. Conta com as participações de Michael Madsen e Asia Argento. Sobre o filme transcrevem-se alguns comentários do seu realizador, Olivier Assayas.
A origem do projecto Uma noticia sobre o assassinato do empresário francês Edouard Stern, durante uma sessão S&M. Parecia algo saído directamente do meu filme Demonlover. Este facto despoletou a criação da história de um assassínio que pressupunha uma relação sexual ambígua, e o mundo do financiamento moderno. Também pensei numa mulher em fuga, a tentar escapar tanto deste crime, como do seu passado. Assim, a primeira parte da história acabou por se centrar no confronto entre um homem e uma mulher, no jogo do gato e do rato entre eles. Eu quis que a segunda parte fosse sobre a partida dela, o seu desespero na fuga. Sabia que a primeira parte podia ser em qualquer cidade de Ocidente mas a segunda parte tinha de ser em Hong Kong. Conheço bem a cidade mas nunca tinha filmado lá. Já sonhava com isso há muito tempo. Boarding Gate Escolhi este nome como uma evocação à ideia de passagem entre dois mundos. Posteriormente, quis que o título do filme fosse a palavra estampada nos passaportes, aquando da partida de Hong Kong «Departed», mas descobri que o Scorcese tinha acabado um filme com o mesmo nome! Filmes série B e financiamento Depois de Demonlover e Clean, quis fazer um filme ao género francês, focado na vida provinciana. Contudo, o projecto encontrou várias complicações a nível financeiro. Um sinal dos tempos. Enquanto esperava para ver se o meu filme francês ia acontecer ou não, decidi escrever e filmar rapidamente outro projecto. Porque não fazer uma espécie de filme de série B em inglês? Porque não acompanhar a nova ordem das coisas, em termos de financiamento, e construir um filme série B? Parco orçamento e rodagem rápida mas todos os benefícios da completa liberdade criativa. Era algo que eu sabia como fazer. Fiz Irma Vep em circunstâncias semelhantes, pelas mesmas razões. Em Março de 2006 procurei locais para filmar o Boarding Gate, ao que se seguiu a préprodução em Paris, para começar a filmar em Julho de 2006. Filmamos durante seis semanas, mais ou menos três em Paris e três em Hong Kong. O filme acabou por custar menos 2 milhões de euros. O truque está em filmar depressa Sinceramente, não senti que tenha perdido nada. Menos locais fazem com que seja mais fácil filmar com menos dinheiro. Em Paris, filmamos primeiro no escritório e no apartamento de Miles (Michael Madsen). No resto da rodagem, quis filmar nos subúrbios para dar a sensação de «no man’s land», que facilmente poderia ser Paris ou outro sitio qualquer. Os subúrbios de uma moderna cidade industrial algures no ocidente. Isto acentuava o contraste com a ultra-urbana Hong Kong. O segredo está em saber como filmar rapidamente. Isto é algo que aprendi há muito tempo atrás por puro instinto de sobrevivência. É essencial ter uma equipa sólida de técnicas e actores prontos a correr os mesmos riscos que o realizador. Isto requer muita energia porque os constrangimentos obrigam a inventar novas soluções. Foi definitivamente o que aconteceu em Hong Kong. Filmar lá não é muito caro se o fizeres à maneira deles. Se chegares lá com a tua equipa ocidental, os teus hábitos ocidentais e a tua estrutura ocidental, então as coisas facilmente se tornam muito caras e pesadas. Asia: sempre pronta a tudo Esta narrativa era inseparável da minha vontade de trabalhar com a Ásia Argento. Ela era a única actriz capaz de verdadeiramente encarnar as várias facetas da personagem. Asia é muito expressiva. Consegue perceber-se que ela se diverte imenso por andar a correr com uma arma na mão. Ela esteve por trás do filme a toda a hora, sempre disposta a fazer tudo, até nas acrobacias mais difíceis. E ela apaixonou-se por Hong Kong, onde nunca tinha estado. Asia: o instinto Asia é uma das poucas actrizes completamente à vontade num plateau, sem ligar ao status. Ela entra em filmes desde muito nova portanto está mais à vontade com os técnicos num cenário caótico, do que num camarim. Asia tem uma certa liberdade na maneira de pensar, de reagir, nas escolhas que faz. Não é algo que ela vista. Ela simplesmente deita isso corajosamente cá para fora. Ela é puro rock n’ roll, o que não é muito comum entre actrizes. Não há nada de pré-fabricado nela. É tudo instinto de uma intensidade invulgar. É uma actriz surpreendente que não discrimina o trivial do sofisticado, acções de filmes série B das cenas mais íntimas. É sempre ela própria, e de uma generosidade imensa. Em cada take inventa algo novo, mas está sempre no coração do filme, no coração da sua personagem. Tem um laço quase irreal com a camera. Michael Madsen Conheci o Michael Madsen através do Nick Nolte, o que foi um bom sinal. Estava à procura de um actor com uma forte presença física que pudesse representar um papel ao mesmo tempo perigoso e sedutor. Quando o contactei, ele conseguiu um espaço na agenda para fazer este filme. Foi paciente o suficiente para nos acompanhar sempre que mudávamos as datas da rodagem. Só precisávamos dele mais ou menos 10 dias, porque a sua personagem só aparecia em três sítios de Paris Quando o Michael conheceu a Asia As cenas com o Michael e a Asia foram filmadas por ordem cronológica. A primeira cena deles juntos, a dos botões de punho, foi realmente a primeira vez que se viram. Nunca se tinham encontrado antes disso. A sedução foi imediata entre eles, mas também uma certa provocação. Ele é um bocado selvagem. Ele tenta identificar-se ao máximo com a personagem, para se por na pele dela. Isto é arriscado para ele e para os que o rodeiam. A Asia também é muito radical, por isso houve uma grande química nas cenas. Havia muita tensão entre eles, como se estivessem sempre a competir, a testar-se um ao outro. Mesmo que as cenas fossem cuidadosamente planeadas e os movimentos todos coreografados, o Michael era sempre imprevisível. A Asia e eu tivemos de arranjar maneira de o acompanhar. Por vezes, até contra ele, tínhamos de arranjar forma de não perder o fio condutor da cena. Ele partiu um prato, cuspiu um caroço para o outro lado da sala, etc… Por outro lado, há coisas às quais ele resiste, que se recusa a fazer, coisas às quais reage de imediato nos vários momentos. Tudo tinha que ser constantemente integrado no filme. A Asia estava sempre perto dele por isso tinha de reagir em tempo real. Eu estou mais atrás, mas também tenho de assimilar tudo e reorganizar as coisas de modo a não perder a ideia das cenas, que às vezes eram muito longas. O Michael pode ser muito exagerado e chegar a extremos. Passando esse limite, ele consegue quase assustar-nos. As coisas podem fugir ao controlo e as situações assumem um realismo perturbador. A Asia percebeu o bluff dele e arriscou bastante. O Michael não parecia contente com a ideia de ser levado ao limite por uma miúda. Por exemplo, na cena de sexo com o cinto. Eu, originalmente, tinha escrito algo bem mais simples. Mas o Michael tinha ideias bem precisas sobre o que a Asia devia fazer-lhe. Houve takes que nos assustaram aos dois, à Asia e eu! Kelly Lin e Carl Ng Como eu ia filmar em Hong Kong, queria fazê-lo nas mesmas condições que no cinema de lá. Queria conhecer a nova geração de actores directamente em Hong Kong, em vez de fazer o casting a partir de Paris. O Carl Ng, que faz de Lester, é modelo e actor que cresceu em Londres. É o filho do Richard Ng, uma estrela dos anos 80. Ele tem uma presença muito forte, que eu achei logo certa para a relação com a personagem da Asia. A Kelly Lin já tinha trabalhado com realizadores com Johnny To e Patrick Tam, e é uma das melhores actrizes chinesas. Com Boarding Gate, é a primeira vez que ela representa em língua inglesa num filme internacional. Kim Gordon, dos Sonic Youth Já conheço a Kim há algum tempo. Conheci-a e ao Thurston quando usei uma das canções deles no meu filme Irma Vep (1996). Desde então mantivemo-nos em contacto. Fui sempre fã do trabalho deles por várias razões, a maior parte das quais têm a ver com o experimentalismo e o seu uso da improvisação. Fiquei muito feliz por trabalhar com eles na banda sonora do meu filme Demonlover (2002). Também os filmei ao vivo e misturei com algumas filmagens em Noise. Eu sabia que a Kim queria representar. Ela tinha entrado em Last Days, do Gus Van Sant. Eu sabia que ela tinha passado alguns anos da sua adolescência em Hong Kong, quando o pai dela estava lá, penso, a dar aulas. Então não tive dificuldades em imaginá-la na Ásia como uma americana que fala cantonês. Filmar em Hong Kong Éramos poucos europeus no plateau. A Asia, o director de fotografia, o engenheiro de som, o assistente, a anotadora, o director de produção e eu. O resto da equipa era local. Eles perceberam que íamos filmar como eles costumam fazê-lo: depressa, com camera à mão. Mas eles estão habituados à Steadycam, e por isso ficaram surpreendidos e confusos com a nossa precisão em relação às cenas e com o facto de sermos obstinados e refazermos as vezes que fossem precisas, até termos exactamente o que queríamos. A dificuldade mas inesperada em filmar à maneira de Hong Kong surgiu porque as equipas deles são muito grandes. Os salários são baixos, por isso há vários técnicos para cada trabalho. Por exemplo, nunca havia menos de seis pessoas à volta da camera. E também, as pessoas em Hong Kong tendem a ser muito barulhentas. Isto foi um problema quando filmamos as cenas de tiros no meio da multidão. A equipa tinha de ter cuidado em ser o mais discreta e limitada possível. As vezes tínhamos de inventar esquemas, a fingir que estávamos a preparar outra cena, só para manter o resto da equipa ocupada, para que pudéssemos ir para outro lado e filmar outra coisa. Nestas condições, o mais difícil era o facto de termos que fazer coisas ilegais, como filmar no metro sem autorização. Fizemo-lo só com uma equipa de quatro pessoas. Fizemos dois takes e fugimos. O mesmo se passou no aeroporto porque estávamos restringidos a filmar a partir de uma loja no meio da entrada. É claro que, apenas daquele ponto de vista, era impossível apanharmos tudo o que queríamos. A nossa equipa de Hong Kong estava aterrorizada com a segurança do aeroporto e tentou evitar que fizéssemos alguma coisa ilegal. Tivemos imenso trabalho para os convencer a filmar as cenas que precisávamos. Eu percebo a relutância deles porque eu nunca teria coragem para fazer isto em Paris! Hong Kong Fui a Hong Kong pela primeira vez em 1984 como jornalista. Mas já fazia curtasmetragens há algum tempo e estava a escrever a minha primeira longa. Nunca tinha ido aos Estados Unidos, então Hong Kong foi o meu primeiro contacto com uma cidade moderna, segundo uma perspectiva europeia. Fiquei lá umas semanas, a passear pela cidade, a conhecer os grandes realizadores da época de ouro dos filmes de artes marciais. Foi uma experiência incrivelmente enriquecedora. A noção deles de cinema era completamente diferente da do ocidente. Penso que isto virou ao contrário algumas noções mais convencionais de cinema que eu tinha. Acho que também teve o efeito secundário de me tornar uma espécie de singularidade dentro do espectro do cinema francês. Ambiente da cidade em si teve um forte impacto na minha escrita e realização. Voltei algumas vezes a Hong Kong, para visitar a cidade, mas sempre soube que um dia voltaria para filmar. Contaminação Ocident Ocidente-Oriente Tendo a deixar que a vida real me inspire e não os filmes. Mas os filmes às vezes acabam por entrar no subconsciente e distorcer a imaginação. Neste sentido, como há algo que se assemelha aos sonhos neste filme, também pela sua maneira de saltar do género ficção para o modo documentário, realidade e fantasia, confesso que é capaz de estar relacionado com o tipo de cinema que eu gosto. Não necessariamente cinema asiático – nunca pensei que havia uma corrente de cinema asiático à parte, mas mais porque o Ocidente e o Oriente têm passado, pelo menos na última década, por um processo de contaminação cruzada. Foi um dos melhores acontecimentos dentro do cinema e eu sempre senti que fazia parte dele. Abrir os meus horizontes Acho que a minha carreira tem andado à volta do desejo, da inspiração e, em parte, da sobrevivência. Os meus filmes e os meus interesses como realizador foram-se gradualmente afastando da tendência da indústria cinematográfica francesa, que se tornou para mim embaraçosamente isolada e convencional. É uma altura muito complicada para os realizadores franceses contemporâneos. Se gostares de comédias mainstream, então não há problema, podes fazer o que quiseres, com o orçamento que quiseres. Se gostares de outras coisas, então vais ter de lutar muito. Eu sempre esperei estar a fazer filmes para uma audiência internacional, não só para França. Mas agora, quando quero obter financiamento em França, eles tendem a considerar-me um “estranho”. Cada vez tem sido mais difícil concretizar os projectos, portanto, mais vale ir até ao fim. Por mais absurdo que pareça, tem-se tornado cada vez mais coerente, economicamente, fazer os filmes em inglês, em vez de francês. E, em termos de inspiração, abre o meu mundo a novas histórias, novas personagens, alarga o leque de escolha dos actores… por isso torna-se lógico. E o meu próximo filme será tipicamente francês. |
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