| By Nuno Cunha,
on 28-04-2008 02:21
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Habacuc tornou-se um marco. Em Agosto de 2007 recolheu um cão doente e faminto e expô-lo na Galeria Códice, em Manágua, capital da Nicarágua. Poucos meses depois o caso era conhecido em todo o mundo, agravado pelo facto de se afirmar que o animal tinha morrido de fome e de sede durante a mostra. Agora, a indignação tornou-se quase universal, após o convite ao artista de participação na Bienal Centro-Americana (Bienarte) que decorrerá este ano nas Honduras a partir de 16 de Novembro. A indignação é, no entanto, a obra do artista.
A instalação de Guillermo Vargas Jiménez (Habacuc é um pseudónimo) é um grito de revolta. Na noite de 10 de Novembro de 2005, um emigrante da Nicarágua há nove anos na Costa Rica, Leopoldo Natividad Canda Mairena, de 25 anos, saltou a vedação de uma empresa industrial de Cartago e foi atacado por dois rottweilers. Durante todo o tempo do ataque dos cães, 54 minutos, acorreram os seguranças da empresa, a Polícia e os bombeiros, e o facto foi filmado e apresentado na televisão. Nas imagens, os presentes assistiram aos ataques dos cães, sem intervirem. Nati, como era conhecido, foi esquartejado, levou cerca de duas centenas de mordedelas, teve múltiplas perdas de pele, músculos, tendões, artérias, veias e nervos em todo o corpo. Depois de ter sido conduzido ao hospital, morreu nos cuidados intensivos com uma paragem cárdio-respiratória. O assunto foi judicialmente investigado, tanto os agentes da polícia como os seguranças da empresa argumentaram não ter disparado contra os cães para não atingirem Nati, e o inquérito concluiu que os dois agentes não o puderam fazer por oposição do dono da empresa. Mais tarde, uma empresa norte-americana ofereceu uma indemnização à família para que esquecesse o sucedido e desse o caso por encerrado. A investigação, entretanto, continua em aberto há quase dois anos e meio e é esperado que ninguém venha a ser incriminado. Habacuc quis recriar a indiferença e a hipocrisia geral que se gerou em torno deste caso. Capturou um cão faminto e doente, prendeu-o na Na Galeria Códice, escreveu na parede, com biscoitos de cão colados, da marca Natividad, “eres lo que lees”, denominou o cão de Natividad, pôs o hino sandinista a tocar ao contrário, instalou um incensário onde queimou 175 pastilhas de crack e uma onça de marijuana, e considerou parte da sua obra os meios de comunicação. Foi a sua “Exposicion No.1”.  Na sua obra, o cão esteve exposto sem alimento nem água e assim ficou até à sua morte. Três dias depois o animal já não estava na Galeria. O caso foi mediatizado e provocou uma indignação mundial, ultrapassando largamente os objectivos do artista. Mais de dois milhões de pessoas assinaram uma petição contra o caso e a larga maioria não entende a diferença entre a realidade e a ficção recriada. O próprio Guillermo Habacuc é um dos signatários, por considerar que a reacção é parte da sua obra e, como obra sua, deve assiná-la. A morte ficcionada é uma realidade, a morte real poderá, no entanto, ser uma ficção, que o artista não esclarece: “Natividad morreu” é tudo quanto diz. Habacuc tem entretanto esclarecido ser um gesto contra a caça, a indiferença perante a morte de animais, alguns em extinção, para o fabrico de casacos de peles, a fome de crianças em todo o mundo, o abandono dos refugiados e que pretendeu motivar “uma reflexão sobre a indiferença e a hipocrisia da sociedade actual”. Desta forma, pôs em confronto “as semelhanças entre estes dois seres Natividad o cão e Natividad o indigente; como correntemente se diz, Natividad teve vida de cão”: Natividad, marca dos biscoitos, é comida de cão como o foi a vítima do ataque dos rottweilers. É arte? É concerteza um acto político. Uma revolta pelo que nos fazemos a nós próprios, aos animais e ao mundo que deixamos aos nossos filhos. Fica a questão em aberto - para além da morte do cão - da correcção, ou não, do recurso a um animal com esse fim. Circula a petição na net em www.petitiononline.com/13031953/petition.html que eu subscrevi. Se não o tivesse já feito, fá-lo-ia agora. * Publicado na revista "NS" (suplemento do "Diário de Notícias" e do "Jornal de Notícias" aos sábados) de 26 de Abril de 2008 |
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