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06-Jan-2009
A Cultura da Monstruosidade | Maldizer PDF Imprimir e-mail

By Vera Chi Lo Sa, on 28-04-2008 18:13

Lamento, mas por hoje dei folga à ironia e à brejeirice.

Comemos desde "foie gras" a “sopa de barbatana de tubarão”, exibimos casacos de peles de vison e de focas bebé, massacramos, mentimos e matamos apenas porque sim. Construímos uma global cultura da monstruosidade e nela vivemos, sem vontade de mudança, parece.

Gregor Schneider, artista alemão, quer transformar a morte humana em "performance". Diz querer mostrar uma pessoa a morrer naturalmente, por exemplo doentes terminais ou algué acabado de morrer, com o objectivo de “mostrar a beleza da morte”.

Aliza Shvarts, aluna de Belas Artes da universidade norte-americana de Yale, quer expor vídeos de abortos a que se submeteu voluntariamente. A aluna praticou, sem intervenção médica, inseminações artificiais ao longo de nove meses, provocando abortos com recurso a fármacos. A menina diz que o objectivo do seu projecto não é chocar as pessoas, mas sim promover a conversa e o debate em torno da relação entre a arte e o corpo humano – pelo que quer expor vídeos do processo abortivo e restos de sangue “trabalhados” que conservou.

Guillermo Habacuc Vargas, artista costa-riquenho, capturou um cão faminto e doente, prendeu-o a um canto da Galeria Códice, e ali o deixou, exposto, sem alimento nem água, até morrer e diz que com este trabalho pretendeu alertar e motivar a sociedade, indiferente e passiva, a uma reflexão sobre a morte de animais para roupas de luxo, a fome de crianças e o abandono dos refugiados.

Nenhum destes três autores afirma pretender chocar, seja por beleza pura, como quer Gregor Schneider, ou como chamada de atenção para problemas civilizacionais actuais, aos quais muitos de nós baixamos a cara. Nada disto teria cabimento se, de facto, não vivêssemos num mundo materialista e cruel.

Chocar, regra geral é difícil. Por acaso, ou talvez não, estamos vacinados contra o horror, porque o horror nos entra todos os dias em casa. Já pouca gente se choca depois de anos de convívio a cores e em directo ou quase, com a morte, a guerra, a fome e as várias pestes que devastam este nosso mundo. Apesar disso, estas intervenções artísticas incomodam.

Desde sempre a arte retrata acontecimentos do dia-a-dia, mas só neste século e no anterior utiliza formas tão violentas e “naturalistas” para o fazer. Porquê? Porque é que uma pintura alusiva aos abusos com animais, não causa a mesma indignação que o acto performativo do mesmo? Estamos nós, sociedade, também mais frios? Ou será que só largamos a nossa carcaça da hipocrisia quando de todo não podemos virar costas?

Por outro lado, pergunto-me, até onde irão as manifestações artísticas, face a acontecimentos como a morte por fuzilamento, na cadeira eléctrica ou por injecção letal. Ou a tortura. Estará para breve uma “performance” de “waterboarding” com vítima voluntária ou nem isso?

Não podemos negar o gosto geral que temos vindo a cultivar pelo mórbido, pelo monstruoso e pelo cruel, como comprova e resume o sucesso da exposição anual do World Press Foto, no que toca as fotografias de guerra e no caso do 11 de Setembro.

Possuímos a destreza de conseguir transformar e gastar tudo o que é bonito, bom e belo, limpo e inocente. Por isso mesmo, tremo quando leio políticas de defesa dos chimpanzés, para que passem a ser considerados humanóides. Já que são tão desenvolvidos não será difícil torná-los em escravos...

 

 

 

 

   

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