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25-Jul-2008
Do arco à harpa: nem útil nem fútil | Perplexidades PDF Imprimir e-mail

By Risoleta da Conceição Pinto Pedro, on 02-05-2008 23:00


 Antifonia, de Pedro Ferreira

Tem madeira, metal, fio e placa transparente. E silêncio. E altura. No sentido musical. E profundidade. No sentido misterioso.

Um paradoxo, diria um ocidental, um haiku visual, diria um oriental.

Esta peça não pensa nem faz pensar, mas faz sentir o inefável, o impossível, o inexprimível, o sonho louco de uma criança ou de um deus particularmente criativo e “afuncional”. É a pancada do mestre no ombro do meditador, é a paragem busca e inesperada no imparável fluxo da consciência.

Alice, a do país das maravilhas, já não se surpreenderia perante um objecto destes. Entre o impropério e a admiração, descobrir-lhe-ia uma inédita função. Uma criança descobriria ainda outra. Um sonhador encontraria inúmeras possibilidades, depois de elevar o objecto até uma nuvem feita de um material de futuro para este objecto sem tempo, sem espaço e sem função. Mas não sem utilidade. Os objectos não funcionais são os mais úteis porque são os mais amplos, os que mais estendem a imaginação, essa arte dessa outra inimitável dupla que é a mente e o coração.

Entra-se no espaço da instalação e olha-se o objecto familiar. Não sabemos de onde o conhecemos, mas conhecemo-lo.

Os objectos impossíveis existem algures num arquivo futuro de objectos improváveis absolutamente grávidos de possibilidades.

Esta harpa silenciosa cria espaço dentro de quem a olha, uma espécie de partitura muda. E algo muda.

Este arco retesado que não dispara, ampara o silêncio das cordas que não tocam. Assim nos tocam, pelo lado do inexplicável.

Apenas um poema de Hermes poderia aproximar-se de o dizer.

 

Risoleta Pinto Pedro
www.risocordetejo.blogspot.com


   

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