plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página arrow Opinião/Crítica arrow Percorrer Vertigo | copy/paste  
05-Fev-2012
Percorrer Vertigo | copy/paste PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 01-05-2008 09:49


 Os espaços percorridos pelas personagens de “Vertigo”, além de apresentarem as características ficcionais próprias da narrativa, mostram curiosas associações à simbologia tradicional. Essencial, no filme, é o sonho lúcido de Scottie, que surge ao espectador menos atento como um pesadelo quando representa um momento da passagem iniciática.

 “O 'Guardião do Umbral' que devemos enfrentar antes que possamos entrar nos mundos suprafísicos, assume sempre a aparência de uma criatura do sexo oposto. No entanto, esta aparência assemelha-se à nossa. Devemos também compreender que quanto mais licenciosos ou libidinosos tenhamos sido, pior será a aparência deste monstro. Parsifal permanecendo erecto diante de Kundry – quando ao recusar submeter-se-lhe a converteu num virago – está na mesma situação que o candidato ao defrontar face a face o guardião, antes que a lança lhe seja colocada nas mãos.” (Max Heindel, “Mistérios das Grandes Óperas”)

 

Os espaços utilizados em “Vertigo” e os elementos que o ocupam foram planeados metodicamente e em plena consciência das implicações simbólicas. Assim, o espaço físico, o espaço onírico e a recorrência de elementos narrativos que ilustram o tema do  eterno retorno estruturam a realidade que se apresenta à experiência do espectador deste filme de Alfred Hitchcock.

 Como espaço físico, “Vertigo” centra-se na cidade de S. Francisco, na Califórnia (EUA) e seus arredores. A escolha desta cidade, também utilizada noutros filmes do realizador, assume aqui uma importância outra.

S. Francisco situa-se na costa ocidental dos Estados Unidos, localização que a relaciona com o pôr-do-sol. A ocultação do Sol surge associada à morte iniciática – a descida ao interior da terra, aos mundos infernais.

A circulação do espectador pelo espaço fílmico, através da identificação com as viagens que os protagonistas realizam de carro, apresenta inconsistências em relação aos percursos reais: muitos dos sentidos encontram-se invertidos ou atravessam-se zonas sem circulação automóvel na época da sua realização[1]. Esta situação, para além de se prender com a narrativa cinematográfica, obedece às necessárias “adaptações” nos percursos “reais” que permitem a “evasão” na realidade física dos condicionamentos do quotidiano – são caminhos outros que não os comummente trilhados.

Vários foram os elementos do espaço físico de S. Francisco usados por Hitchcock com preciosismos de conhecedor esotérico. A cúpula do Palácio das Belas-Artes, apoiada sobre pilares e junto da qual se passa duas vezes no filme, associa-se à cúpula celeste e relaciona-se com a saída do mundo condicionado, através do necessário despertar. A cúpula – telhado – tem não só um sentido cósmico como é também “imagem” do topo do crânio – através do qual se processa parte significativa das ligações aos outros planos da existência.

Em “Vertigo”, a primeira passagem junto à cúpula é feita à distância – quando Scottie persegue Madeleine. A cúpula, semi-oculta pela vegetação que cobre a paisagem, revela aqui a inacessibilidade de Scottie, na altura, relativamente a um acréscimo da consciência de Si e consequentemente do mundo que lhe é exterior. Na segunda vez, Scottie e Judy caminham perto da cúpula e olham-na. O despertar, impossível no passado, está agora ao alcance de Scottie, pois não só atravessou o umbral, no seu sonho lúcido, como se encontra agora ao lado de Judy.

A ponte de S. Francisco é outro elemento presente no filme quase desde a imagem inicial, quando, à noite, os dois polícias perseguem o criminoso por cima dos telhados. Pouco depois é também associada ao “soutien” que está no apartamento de Midges, através da referência que é feita ao modo de criação: foi concebido com base nos princípios da engenharia das pontes suspensas. Mais tarde é junto à ponte que Madeleine faz a simulada tentativa de suicídio.

Atravessar a ponte é “morrer”. A ponte está associada à passagem e à resolução dos conflitos interiores que prendem o ser a um estado inferior de consciência do mundo manifestado. “O simbolismo da ponte, como o que permite passar de uma margem para a outra, é um dos mais espalhados universalmente. Esta passagem é a da terra para o céu, do estado humano para os estados supra-humanos, da contingência para a imortalidade, do mundo sensível para o mundo supra-sensível.” (“Dicionário dos Símbolos”, Jean Chevalier e Alain Gheerbrandt)

A morte e o renascimento também se encontram presentes quando Madeleine se atira à água – são aspectos associados à simbologia do rio.

 Para além de S. Francisco, outros espaços físicos são utilizados no filme. Entre eles o da Missão de S. João Baptista, a Sul da cidade. No caminho para a Missão é mostrado ao espectador, na paisagem que o carro percorre, um enorme rochedo em forma de pirâmide, com o qual se podem estabelecer as necessárias associações. Já em S. João Baptista, santo solsticial e anunciador, são utilizados vários espaços: o estábulo, a praça, a igreja e a sala de um edifício da praça onde se realiza a julgamento do processo de inquérito relativo à morte de Madeleine.

No filme, a igreja de S. João Baptista[2] e, em particular a sua torre, é um elemento fundamental não só na narrativa como também na conclusão do percurso que leva Scottie a um estado superior de consciência.

A torre da igreja é a porta que Scottie atravessa, ao atingir o topo e que o conduz a novo estado. “A porta simboliza a realização completa de um estado, sob o ponto de vista de que onde não pode haver nenhuma outra coisa no ser excepto o próprio ser.” (“Dicionário de Símbolos”, Hugin) Ao transpor essa “porta”, Scottie liberta-se do seu passado e situa-se na eternidade do presente.

Um dos momentos mágicos, entre os muitos que o filme contém, é o da visita ao bosque, onde Scottie e Madeleine observam uma árvore abatida. Madeleine faz uma observação em relação à reencarnação e à insignificância da vida humana – mera manifestação da eternidade do Espírito – e desaparece atrás das enormes sequóias, deixando Scottie perdido e desamparado ao vislumbrar mais do que racionalmente concebe.

A árvore enquanto símbolo utilizado no filme indica quer a regeneração, quer o ciclo de renascimentos[3], quer ainda o caminho ascensional do visível rumo ao invisível. A árvore[4] em si está também associada ao número 21, número do Andrógino, o Ser reunificado.

Na árvore encontram-se registadas algumas datas. Ao todo seis momentos, os anos 909, 1066, 1215, 1492, 1776, 1930, todos eles da Era Comum. O momento em que as personagens se encontram, o tempo actual – presente – na narrativa fílmica deve ser encarado como o sétimo, a conclusão do ciclo.

 À frente das datas existem algumas indicações: a seguir a 909, apenas DC; a 1066 corresponde a Batalha de Hastings (em Inglaterra); a 1215 a assinatura da Magna Carta; a 1492 a descoberta da América; a 1776 a Declaração da Independência; e a 1930 o ano em que a árvore foi deitada abaixo. Dois aspectos se podem extrair directamente nestes elementos, dois movimentos. Há uma deslocação do centro de acontecimentos em direcção a Ocidente, o percurso descrito pelo Sol, o caminho da manifestação. E, a uma conquista/descoberta, associada às datas 1066 e 1492, sucedem-se declarações de direitos, associadas às datas 1215 e 1776. Lei e ciclos relacionam-se. Apenas através do entendimento dos últimos e incorporação da primeira será possível ao ser humano libertar-se do ciclo de encarnações.  

Se se subtrair à última data, 1930, a primeira, 909, fica-se com um total de 1021, o qual é o resultado da soma de 1000 e 21.

O número 1000 relaciona-se, quer com a árvore da vida, quer com a imortalidade que lhe está associada. O 21 é um dos atributos da Sabedoria (Sofia). Significativa é igualmente a sucessão que este número sugere, do 2 para o 1, mostrando assim a resolução do conflito que caracteriza a existência dual, através da solução que caracteriza a unidade, pela descoberta de Identidade, o despertar do conhecimento de Si. A própria construção narrativa está de acordo com este aspecto que se assinala. Inicia-se o filme com quatro personagens principais (Scottie, Madeleine, Midges e Gavin), de seguida ficam três (Scottie, Gavin e Midges), duas (Scottie, Judy/Madeleine) e finalmente apenas uma (Scottie).

A data central, 909 DC, a única que não tem associado um acontecimento específico, é de extrema importância simbólica pois, quer a sua posição, quer o seu número se relacionam directamente com o centro. Somando 909, 9+0+9 = 18 = 1+8 = 9. O nove representa o limite da série da manifestação e o retorno do ser à unidade: o centro.

As datas – o número e os anos a que se referem – mostram outras associações importantes. As seis datas registadas relacionam-se com a alma humana, hermafrodita. Ao incluir-se nelas o momento presente, a vasta simbologia do 7 manifesta-se. O 7 é o número do homem realizado, reúne a Terra e o Céu – une o que está em cima ao que está em baixo – ao juntar o 4 (elementos) e o 3 (colunas do espírito). No Tarot, o arcano correspondente é a carroça, igualmente símbolo de realização. Em “Vertigo”, quando Judy se transfigura em Madeleine e beija Scottie, ambos são transportados para o estábulo onde se encontra a carroça.

O ano 1215, ano da assinatura da Magna Carta pelo rei João Sem Terra é-o igualmente da instituição da Transubstanciação, pelo Concílio de Latrão e o ano da morte de Gottfried von Strassburg (autor da versão de Tristão e Isolda que serviu de inspiração à ópera de Wagner com o mesmo nome).

1930, para além do ano em que a árvore foi abatida, é o ano da descoberta de Plutão, da formação do partido nazi e, no filme, o ano do nascimento de Madeleine.

Na narrativa do filme, os sonhos são um dos factores de expansão da realidade, possibilitando a transcendência da existência condicionada. Em primeiro lugar, têm-se os sonhos de Madeleine[5], que Scottie se esforça por analisar e procurar uma solução racional, dentro de um quadro puramente psicológico – a “chave” para o problema que foi “encarregue de resolver”.

 Em segundo lugar, o sonho lúcido[6] – o “pesadelo” – de Scottie, de características iniciáticas, representa a passagem pelo guardião do umbral, na figura de Carlota Valdes.

O sonho[7] começa com a sobreposição de tons de azul sobre o rosto de Scottie. Progressivamente os tons alternam com o violeta, até se manterem neste último. Quando abre os olhos e penetra no seu sonho lúcido, Scottie vê as pétalas de um ramo de rosas dispersarem-se. De seguida vê Carlota e Gavin – que impediram, no plano físico, denso, a sua realização e concentra a sua atenção em Carlota. Caminha então na escuridão, no vazio, até chegar ao cemitério onde vê o túmulo de Carlota Valdes aberto – a sua passagem – e penetra nele. O sinal de que a passagem foi efectuada é dado a seguir, quando vemos apenas a sua cabeça, com tonalidades verdes, em queda através de um túnel em espiral. Scottie vê e vive, então, a origem do seu trauma – a queda no telhado – e resolve-a. Encontra o grande vazio onde conhece o Si próprio e, incapaz de absorver, desde logo, a consciência readquirida, regressa ao seu corpo físico.

Significativos, entre outros, o uso do ramo de rosas, representação do centro místico – o interior da rosa, o “nada” eterno que é identidade, por detrás das pétalas, efémeras manifestações da personalidade – e da cor violeta, última cor do espectro visível e símbolo de lucidez.

Na narrativa fílmica, o uso do eterno retorno é, igualmente, criador de espaço, ao desenvolver ciclos de acontecimentos que se repetem e possibilitarão, a seu tempo, a libertação do ser dos condicionamentos que caracterizam estes. Sendo central na definição do espaço-tempo do filme, o eterno retorno envolve não só os eventos verificados como também a transformação dos seres que lhes estão associados.

Nesta obra de Hitchcock, a personagem interpretada por James Stewart, Scottie, inicia a história como homem moderno[8], situa-se no tempo histórico, vive o tempo “real” – aparente e ilusório – que caracteriza a história. As metamorfoses por que passa ao percorrer o caminho iniciático irão fazer com que passe a situar a sua existência num tempo mítico, situado fora da história, e cujos ciclos repetem continuamente o acto criador. Este é o tempo em do homem arcaico – o eterno presente.

Como exemplos directos da utilização do eterno retorno em “Vertigo” refiro: a repetição dos percursos na perseguição que Scottie faz a Madeleine a pedido do marido desta; a “reencarnação” de Carlota em Madeleine e a(s) repetição (ões) do seu suicídio; os fantasmas de “Madeleine” – objectos (caso do bouquet de rosas) e mulheres que Scottie associa à Amada perdida – que Scottie vê constantemente, após regressar da sua convalescença; a transfiguração de Judy em Madeleine; o regresso à Torre da Igreja; o uso repetido da Espiral (no genérico, no sonho de Scottie e no penteado de Carlota, Madeleine e, posteriormente, de Judy); e o ressurgimento do colar de Carlota ao pescoço de Judy.

 O eterno ciclo das reencarnações do espírito no mundo visível – o Samsara dos hindus, budistas e jainistas – surge associado ao círculo. A espiral representa a libertação desse estado condicionado, através do acesso ao centro de Si.

Há, contudo, outras referências mais subtis, preciosidades cinematográficas nalguns casos e associações esotéricas noutros. Situo neste grupo: as datas inscritas sobre os ciclos concêntricos dos anéis da árvore abatida – e sua importância numerológica; a referência à missão S. João Baptista[9]; o regresso de Madeleine ao lugar de infância de Carlota, essa mesma missão; a panorâmica sobre a praça da missão, que se repete em dois momentos distintos; e, o recontar de histórias.

“Vertigo” é um filme que encerra lições iniciáticas já transcritas de forma cifrada em outras histórias, quer em obras do período clássico, quer, posteriormente, em escritos medievais. A própria forma como parte dos conhecimentos são conservados por Pop Leibel, o proprietário da livraria Argosy[10], reforça o sentido do conhecimento oculto que se transmite, em parte, oralmente, como foi o caso da história da vida atribulada de Carlota, que terminou em loucura e suicídio (factos ignorados pelos livros de História).    

A estrutura narrativa de “Vertigo”, em que o fim se assemelha ao princípio embora num estádio superior, sublimado e desperto, está associado a uma outra representação directa da ideia de eterno retorno a Uroboros, a serpente que engole a cauda “e simboliza um ciclo de evolução fechada sobre si própria.” (“Dicionário de Símbolos”, Jean Chevalier e Alain Gheerbrandt) A “passagem estreita” a essa nova e superior condição de ser tem um “guardião” construído por nós próprios: o somatório dos medos que os “erros” cometidos construíram ao longo de múltiplas existências e se encontram recalcados no inconsciente. Só olhando de frente esse “espectro” se acederá a outros níveis de consciência.

 



[1] Segundo dados presentes em “Footsteps in the Fog – Alfred Hitchcock San Francisco” de Jeff Kraft e Aaron Leventhal.

[2] A torre que se vê no filme é construída através de efeitos especiais. A igreja da Missão teve, de facto, duas torres, ambas destruídas. Hitchcock conheceu a segunda, mas ela já não existia na altura da realização de “Vertigo”. Este facto atesta não só a importância dada à torre como também o do lugar onde esta se encontra: a Missão San (J)uan (B)autista.

[3] Conforme assinala Mircea Eliade os anéis das árvores são evidências de morte e renascimento vezes sem conta.

[4] A árvore cósmica aparece representada desenraizada, com a copa na terra, como o sugerido nalgumas das pinturas de Caspar David Friedrich e, no filme em análise, na árvore na falésia junto ao mar, onde Scottie e Madeleine se beijam pela primeira vez.

[5] De assinalar a circunstância, já referida por João Bénard da Costa n’As Folhas da Cinemateca, do plano em que Midges “abandona” Scottie em convalescença no hospital ser uma possível representação do final do sonho que Madeleine descreve.

[6] Como se depreende facilmente do facto de se ver Scottie abrir os olhos no início do sonho e voltar a abri-los ao regressar ao seu corpo físico, “acordando”.

[7] Antecedido por uma imagem da cidade de S. Francisco, à noite, com a ponte ao fundo.

[8] Uso a distinção feita por Mircea Eliade na obra “O Mito do Eterno Retorno”, entre homem arcaico e homem moderno.

[9] Reencarnação do profeta Elias.

[10] Hitchcock inspirou-se numa outra livraria com existência real, a Argonaut Book Shop, para a recriação feita para o filme.


   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2012 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >