| By João Penalva,
on 05-05-2008 18:07
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João Penalva expõe T.D. (Transmissão Directa do Relógio da Igreja Matriz de Vila do Conde), na Solar – Galeria de Arte Cinemática em Vila do Conde, de 10 de Maio a 22 de Junho. Publica-se a seguir um texto de João Penalva sobre este seu trabalho.
Este projecto centra-se numa máquina com movimento contínuo, com alterações constantes e ritmadas dos seus elementos mecânicos: o relógio da torre da Igreja Matriz. As mais ínfimas alterações desses elementos produzirão, em tempo real e de modo contínuo, variações sensíveis nas imagens projectadas e uma profusão de sons que variarão entre os mais subliminares e as fortes badaladas com as quais o carrilhão de sinos marca as horas e os eventos mais importantes da vida no centro da cidade. O espaço que alberga o mecanismo do relógio será reflectido em múltiplas projecções reconstruindo os percursos e as divisões do rés-do-chão do Solar de S. Roque. João Penalva desloca-se a Portugal para apresentação do projecto T.D. na Solar, e durante esse período terá lugar um programa paralelo em Lisboa (Cinemateca Portuguesa), Porto (Fundação de Serralves) e Vila do Conde (Auditório Municipal). Este programa integra, para além de dois trabalhos anteriormente apresentados em Portugal (Kitsune e 336 Pek), um conjunto de videos que serão exibidos pela primeira vez em Portugal. T.D. (Transmissão Directa do Relógio da Igreja Matriz de Vila do Conde) “Este projecto, específico para a Solar —Galeria de Arte Cinemática — destina-se a todos os seus espaços de exposição, a partir da projecção de uma só imagem, captada por uma câmara Hi8 instalada na torre do relógio da Igreja Matriz. A imagem e o som do mecanismo do relógio em movimento são levados, por transmissão directa, a um outro espaço onde, através de vários projectores e espelhos, eles desdobram-se, se transformam, se revelam ou confundem em abstracções, ao contacto com o espaço físico deste espaço que os recebe. Sempre presente, no entanto, será o som dos segundos — o marcador da passagem do tempo na sua versão mais semelhante ao do ritmo que escutamos do nosso próprio corpo. A torre do relógio tem sempre a sua história, indissociável da sua função social, mas a torre de uma igreja tem a característica particular de partilhar os seus sinos entre as badaladas que anunciam a hora, o quarto de hora e a meia hora, e as badaladas que chamam os fiéis ou lhes transmitem outra mensagem que não a do tempo que passa — umas de vida, outras de morte. As badaladas, transmitidas ao vivo no espaço de exposição, serão surpreendemente mecânicas e ameaçadoras, seguidas imediatamente do calmo mas igualmente sinistro bater dos segundos. O tempo torna-se, assim, fisicamente mensurável, fisicamente sentido, através da manipulação de escala, cor e som de elementos geralmente escondidos por trás de um mostrador impassível. Este projecto tem a sua origem, por um lado, no meu interesse pela flexibilidade do projector de vídeo como objecto que pode — literalmente — ser manuseado, o que o distingue do projector de 35mm, ou mesmo de 16mm, que, pela sua dimensão, se torna geralmente imovível; o facto da imagem vídeo poder ser projectada em qualquer superfície e de, em diálogo com o espaço, ela se transformar ao transformar o espaço. Por outro lado, trata-se de uma transmissão em directo e não haverá um registo das imagens transmitidas. Assim, uma vez terminada a transmissão, nada restará para além de memórias pessoais e um registo fotográfico. A introdução de banda de vídeo na câmara é expressamente proibida. Foram realizadas duas versões deste projecto, em 2005 e 2006, respectivamente no Wasserschloss, Goss Leuthen, Brandenburgo, Alemanha, e no Irish Museum of Modern Art, instalado no antigo Royal Military Hospital, Dublin, Irlanda, ambos com uma torre de relógio mas histórias muito diferentes; a de um palácio de um abastado burguês alemão do século dezanove, e o de um hospital militar do século dezoito na Irlanda. As características específicas de cada localização transformam o mesmo processo — a transmissão em directo do mecanismo de um relógio de torre — em imagens que nada têm em comum além do inconfundível som que as acompanha.” João Penalva |
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