| By Luís Pinheiro,
on 30-09-2008 08:41
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A actividade artística é das que mais contribui para a poluição ambiental. Porém, a Arte, ao libertar o ser humano das grilhetas que o aprisionam, possibilita o despertar da consciência ecológica.
“Quem se ocupa da investigação da natureza ou no puro gozo da sua riqueza, não pergunta se uma natureza e se uma experiência são possíveis. Basta-lhe que ela esteja diante de si; tornou-a real pela sua própria acção e a pergunta acerca do que é possível só convém àquele que não acredita ter a realidade nas suas próprias mãos. Decorreram já épocas inteiras de investigação da natureza e ainda não estamos cansados dela. Indivíduos entregaram a sua vida a esta ocupação e não cessaram ainda de adorar a deusa velada. Grandes espíritos viveram no seu próprio mundo, sem cuidarem dos princípios das suas descobertas, e o que é a glória do céptico mais perspicaz diante da vida de um homem que suporta um mundo na sua cabeça e a totalidade da natureza na sua imaginação.” (F.W.J. Schelling, “Ideias para uma Filosofia da Natureza”) O mundo, com os objectos e seres vivos que o integram, surge aos olhos do observador ou como um presente embrulhado, tipo caixa de chocolates, ou como um filme de guerra, onde as ruínas abundam. A diferença reside apenas na forma como se olha e no que se centra a atenção. A ilusão, sempre presente, não consegue disfarçar, contudo, algumas situações. A humanidade está doente. A sua febre propaga-se, é contagiosa e invejosa. Os que lhe procuram escapar são os mais importunados. E uma das maiores vítimas é o meio ambiente. Os limites impostos pela natureza estão a ser ultrapassados. As cidades degradam-se. A sobrevivência da espécie humana está ameaçada, isto a dar crédito ao transmitido por alguns meios de comunicação. A serenidade de espírito do ser humano eclipsou-se. Acreditar em quê? E em quem? O que fazer? E qual o papel que a arte e quem a produz pode desempenhar? Estará também sob a ameaça da loucura dominante? A destruição da paisagem natural e urbana resulta da ausência de um comportamento ético, consequência directa de um sistema valores assente na exploração dos recursos existentes – homens, matéria-prima, energia – e não no assegurar da sua preservação e/ou evolução. O Homem é um ser em luta consigo próprio – egoisticamente centrado em si, em competição constante com o exterior, “os outros” e o meio ambiente em que se insere. Só poderá respeitar o lugar que habita – ter uma atitude ecológica – quando, ao reconquistar a sua identidade, reconhecer a interdependência dos fenómenos que experimenta, e a “equivalência” entre o seu mundo interior e o exterior. Ao recuperar essa condição, ficará senhor de si próprio e libertar-se-á dos desejos que lhe são impostos do exterior e que o escravizam – condicionando a sua acção. A sua carta de alforria só poderá existir quando deixar de lutar contra a corrente e se reintegrar no fluxo que continuamente o procura conduzir a uma situação de harmonia. Este entendimento, de natureza interna, projectar-se-á exteriormente num comportamento consciente. As questões energéticas, a caça, os resíduos tóxicos e os nucleares e outros poluentes urbanos, a biodiversidade, o desenvolvimento sustentável, a globalização da economia, a sobrevivência das línguas minoritárias e dos dialectos locais face a uniformização realizada pela língua cada vez mais padrão – o Inglês – a imigração e os movimentos sociais, e a promoção da paz, eis algumas das preocupações constantes dos ecologistas. O vegetarianismo, para alguns, também se inclui nesta curta lista. Os comportamentos ecológicos são profundamente políticos daí a importância que adquirem hoje em dia movimentos como o Greenpeace, a PETA, a Quercus (em Portugal) e a Amnistia Internacional, para além do interesse aparente que os diferentes grupos partidários mostram por estes assuntos – existem até partidos que têm por base este tipo de pensamento, tanto de esquerda como de direita, como Os Verdes e o Partido da Terra (no caso português).
Em ecologia há duas formas de proceder, uma com intenção preventiva e uma outra com objectivos correctivos. Ambas são essenciais, embora a última seja geralmente adoptada pelo sistema económico, para se prolongar e incluir estes comportamentos num novo mercado a controlar. Assim, o sistema só promove a reciclagem obrigatória, quando assegura para si o controlo desses serviços. É perseguido todo aquele que fizer alguma reciclagem/reutilização antes de esta ser fomentada pelo sistema – i.e., antes de a estrutura se montar em torno de empresas que certifiquem e controlem a sua recolha e transformação. E, claro, se confirmem os lucros daí provenientes, que de forma “ilegal” estavam a ser “apropriados” pelos “clientes”. Outra forma de disfarçar as causas do problema – o excesso de produção – é promover a recolha colectiva de parte de uma embalagem, em que o consumidor se pensa herói nos pequenos “gestos” que executa, mas nada resolvem e apenas o distraem das questões essenciais. O sistema tudo controla. E os que a ele estão submetidos têm os movimentos tolhidos. Só se conseguirão resultados quando se alterar o sistema produtivo, que promove economias consumistas, leva a uma escassez de recursos, gera a poluição e o aquecimento global e conduz à degradação física e psicológica dos neo-escravos que o alimentam. Há uma ecologia do sistema, a preponderante. E, uma outra, marginal, a alastrar pouco e pouco, e que o minará, apesar das tentativas de integração. Veja-se, por exemplo, o assinalável retrocesso que representa a próxima legislação comunitária, a entrar em vigor em 1999 sobre agricultura biológica. E o que dizer, quando a ex-estrela da pornografia Zara Whites, na realidade Esther Kooiman, se transfigura e começa a fazer campanhas – performances públicas e apoio directo no seu blog – para a PETA? Numa civilização que vive em grandes concentrações urbanas, onde a competição e a exploração do ser humano se efectuam de formas cada vez mais acentuadas, a única forma de sobrevivência parece, à partida, ser a afirmação pessoal. Procura-se a visibilidade. Desempenham-se os papéis sociais de forma exuberante. Na arte, os eventos excedem-se, mas escasseiam as Obras. Há poluição visual, sonora e vocabular. Proliferam “graffitis”, cartazes, sinais de trânsito, sistemas internos de vídeo projecção. Nas revistas, salas de cinema e exposições são inúmeras as imagens de qualidade e temática duvidosas – por explorarem aberrações, perversões, violência ou serem simplesmente vazias de conteúdo. A “música” popular reformula-se vezes sem conta através do ruído, da distorção ou da entoação sedutora de alguma vocalista. Faz-se depender o “valor” de algumas destas obras do volume de audição. As imagens dos “videoclips” e outros meios de “merchandising” substituem a obra. A linguagem utilizada na comunicação corrente e na expressão artística é pobre e, por vezes, obscena. Tradicionalmente, a pintura seria mais ecológica do que a escultura, ao permitir a sobreposição por camadas de tinta. Ao longo do último século, contudo, os artistas começaram a aproveitar os materiais industriais em todas as suas composições. Aparecem os “ready-made” e, pela reutilização, a “assemblage” e as colagens. Recorre-se às novas tecnologias de produção para composição, execução e reprodução de obras. Hoje, alguns artistas praticam a apropriação (Mike Hoolboom, por pensar que já existem imagens demais, realiza filmes com imagens provenientes das suas “filmagens caseiras” e obras anteriores de outros autores). Outros questionam directamente a sociedade de consumo. Nas últimas décadas, através de correntes como o conceptualismo ou a “Land Art”, a prática artística adquiriu contornos mais ecológicos. As “performances” e os “happenings”, se tiverem por detrás esse tipo de preocupação, representam formas de intervenção “amigas do ambiente”. Os artistas desenvolvem, também, trabalhos em espaços exteriores aos institucionais: os jardins, a natureza e a própria urbe. Por vezes, as intervenções acontecem nos próprios espaços museológicos, sem alterações nas obras que se encontram expostas.
A fotografia digital revela uma dupla faceta: por um lado, no processo fotográfico, elimina a revelação e, consequentemente, polui menos o ambiente físico; por outro, a um nível virtual e psicológico há um aumento de ruído visual, pelo acréscimo desmedido do número de imagens que passaram a existir. Importa referir que apesar de ter ficado acessível à maioria da população, os registos efectuados não foram acompanhados por uma necessária educação estética. O mesmo acontece com o cinema digital: por um lado, o processo torna-se menos oneroso e acessível aos autores, pela possibilidade de eliminar a indústria na produção; por outro, realizar-se-ão cada vez mais obras que não chegam aos circuitos de exibição, pelas razões conhecidas e também por serem destituídas de qualquer valor artístico, por falta de conhecimentos técnicos e estéticos. No cinema, de referir, ainda, a obra de Agnés Varda “Les Glaneurs et la Glaneuse” (2000), documentário que aborda de vários pontos de vista – social, jurídico, económico, comercial e artístico, entre outros – a problemática ambiental no caso concreto da respiga. Os espaços expositivos servem também cada vez mais exposições, onde os conceitos espaciais diversos obrigam a constantes remodelações, mais despesas e, consequentemente, uma má gestão dos recursos. A arquitectura destes espaços – como já tem sido defendido – deverá ser o mais flexível possível. Apesar disso, alguns artistas demonstram uma atitude ecológica nas suas intervenções, como Karin Sander na recente exposição “Drawing a Tension” na Fundação Calouste Gulbenkian. Já no início do século passado, através do recurso a novas técnicas e materiais de pintura, entre outros factores, o número das obras tinha aumentado. Agora, com as técnicas industriais, o seu número é ainda maior. Há “obras” em excesso, qualquer que seja a forma com que surgem ao observador. Neste contexto, faz sentido falar em produção. A destruição maciça dos recursos do planeta é, para o artista politicamente activo, um campo de intervenção importante. E, se o fizer através de uma arte descomprometida, poderá reencontrar-se, eventualmente, no meio ambiente que habita. Ao artista restam também as possibilidades de imaginar apenas a sua obra, tomar apontamento em diário gráfico, arquivar a ideia para posterior desenvolvimento ou executá-la reutilizando materiais. Ou ainda, como muitos artistas fazem, com o “lixo” dos seus ateliers. 
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<!--[endif]--> Hoje, a maior parte da humanidade, em diferentes fases de evolução, está ainda muito longe desta situação. E, no decorrer do processo de evolução, sucederão, inevitavelmente, excessos em que alguns se sentirão superiores e, como tal, com o direito de dominar os outros e o mundo. Na sua visão limitada, o homem encara o mundo exterior como distinto de si e, como a sua consciência é autocentrada, entra em competição com os outros e com o meio ambiente. Nas restantes áreas artísticas, a música, o teatro, a dança e a literatura, pelas suas características estas questões não parecem ter a mesma relevância (pelo menos no que concerne à criação). A fotografia acessível a todos é a grande responsável pela proliferação das imagens que já nem observadas são. As fotografias digitais tiram-se e ficam guardadas numa pasta, CD ou cartão de memória com o intuito de se voltarem a ver mais tarde, o que certamente poucas vezes acontecerá, pois entretanto tiraram-se mais algumas. O mesmo acontece com as músicas e os filmes de que se faz “download”, não se ouvem nem se chegam a ver. Os DVD’s e livros que se possuem lêem-se uma vez e são, também, postos de lado. Se na produção e difusão os meios virtuais são formas tecno-ecológicas, não o são na proliferação a que conduzem no consumo. A própria renovação tecnológica – uma constante – é a responsável pelas réplicas que surgem primeiro em vídeo, depois em DVD, primeiro em vinil, depois em CD… |
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